“Aqui era tudo mangue”, esse é o título do filme dirigido por Clecia Borges e Joyce Vieira. Título sugestivo que nos leva a pensar na passagem do tempo, nas transformações da paisagem e nas mudanças pelas quais as cidades tem passado com suas construções cada vez mais anti-natureza. Logo no início do filme uma cena chama atenção. Um homem fotografa a fachada de uma casa pequena e simples. Parece registrar aquilo que existiu e que está deixando de existir. A fotografia preserva uma memória diante de um processo de apagamento, mas também carrega o olhar humano que enquadra, seleciona e transforma o território em imagem, em objeto de observação e de memória.
Grande parte das cenas acontecem numa outra casa, ainda marcada por características de uma antiga vila de pescadores, com seu quintal. A casa parece testemunhar não apenas a passagem do tempo, mas a transformação de um território. Ela funciona como vestígio de uma paisagem que está desaparecendo e como testemunho de um modo de vida progressivamente deslocado por uma lógica de ocupação e domínio do espaço, em que a natureza está subordinada às necessidades, aos desejos e aos projetos ambiciosos do humano. Nela, o cotidiano de uma família composta por uma mulher e duas crianças vai revelando os vestígios de um mangue, como uma presença que parece reivindicar seu espaço e sua existência.
A relação entre os personagens e o mangue é algo peculiar, o menino que se pinta com a lama e transforma o mangue em painel na parede, a mulher e a menina que mergulham as mãos na terra e na lama, a chuva de folhas que cai na menina. Tudo isso estabelecendo uma relação sensorial e quase ancestral com aquele ambiente. Nesses momentos, parecem deixar de se colocarem em oposição à natureza, se integram à ela. Uma dimensão importante quando pensamos o humano como agente colonizador de outras espécies e seus territórios. Uma ocupação que muda o cursos dos rios, elimina vegetações, soterra mangues e reduz seus ecossistemas, interferindo nas condições de existências de inúmeras espécies e comunidades com ritmos, relações e modos de viver próprios.
Pelo caráter sensorial do filme, as imagens e os sons ocupam um lugar mais significativo do que as falas, permitindo que o espectador experimente o ambiente por meio da matéria, da textura, da umidade, da lama, da vegetação e da sonoridade. O silêncio e as imagens fazem com que o mangue adquira uma espécie de agência própria. Ele não é apenas observado, parece também olhar de volta, resistir e responder à presença humana. Com isso, o filme desloca o humano do centro absoluto da narrativa e abre espaço para uma percepção mais ecológica e diversa. Assim, a natureza não é um espaço vazio à espera da ação humana. Trata-se de um território já habitado por múltiplas espécies e relações, no qual o humano é apenas uma das formas de vida.
Podemos considerar que o título do filme “Aqui tudo era mangue” é também uma afirmação de desaparecimentos de áreas de proteção ambiental. A cidade invade o mangue e passa por mais outro processo de desaparecimento com a gentrificação e a valorização desigual dos territórios. À medida que determinadas áreas passam a ser disputadas por novos projetos urbanos, formas de ocupação historicamente vinculadas às populações que ali vivem são progressivamente deslocadas, deslegitimadas ou apagadas. Não desaparecem apenas casas, quintais ou paisagens, mas relações construídas ao longo do tempo entre as pessoas, as águas, os animais, as plantas e o próprio território.
O filme recupera, ainda que de maneira sensível e não necessariamente intencional, uma percepção defendida por Ailton Krenak e Nego Bispo de que não somos exteriores ao mundo que habitamos. O mangue não é apenas paisagem, recurso natural ou espaço disponível para a expansão urbana, ele participa da vida e produz relações. Não é mercadoria, não deveria ser propriedade privada e não é recurso ilimitado para exploração predatória. Mas sim, um ente que com generosidade nos alimenta.

*Edlamar França – psicóloga, psicanalista, colunista do Brasil de Fato, e crítica de cinema na
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