Há histórias que parecem pequenas e insignificantes diante de grandes narrativas oficiais sobre um acontecimento ou formação de um lugar, mas quando conhecidas e contadas com a nobreza que carregam, alargam a nossa compreensão da história e restitui o poder edificador que elas têm somadas a tantas outras ocultadas pelas “grandes” narrativas. A história de João Tomé é uma delas, mas “Nem Todos Sabem”. E é isso que o documentário dirigido por Edileuza Penha de Souza mostra. Esse autodidata nasceu em Uberaba, Minas Gerais, chegou em Brasília como candango. Era músico extraordinário, multi-instrumentista, compositor, professor de música e um virtuose do Choro. Como dizem, tinha um ouvido absoluto, capaz de ouvir uma música e reconhecer suas notas, perceber afinações e desafinações e reproduzir estruturas musicais com uma precisão incomum. Luthier nato, fabricou o primeiro instrumento que tocou e, movido pela curiosidade, passou a construir e modificar outros instrumentos.
Talvez a característica mais importante de sua história esteja na maneira como sua cegueira foi vivida no seio familiar. Sua mãe não o diferenciava dos irmãos. Ele participava das tarefas domésticas, realizava as mesmas atividades que os demais e era educado para não ocupar o lugar social do “coitado” ou do “incapaz”, e sempre que parecia performar isso, recebia reprimendas de sua mãe. Não se tratava de negar a cegueira, mas de não permitir que ela definisse antecipadamente aquilo que ele poderia ou não ser e fazer. Essa experiência familiar foi fundamental para a constituição de um sujeito que contrariava as expectativas sociais sobre uma pessoa cega.
João Tomé também é parte da história do Instituto dos Cegos em Minas Gerais. Durante muito tempo, pessoas cegas foram tratadas predominantemente a partir da caridade, da tutela, da segregação ou da institucionalização. Criaram-se espaços específicos para aqueles que não correspondiam ao modelo de corpo considerado normal e produtivo. O próprio surgimento de instituições destinadas a pessoas cegas precisa ser compreendido nesse contexto: ao mesmo tempo em que representou possibilidades concretas de educação e sociabilidade, também fazia parte de uma história na qual a diferença era frequentemente organizada em instituições separadas. Ele não se conformou a essa lógica, recebeu e produziu conhecimentos, mas não aceitou que a instituição, a deficiência ou o olhar dos outros determinassem completamente sua forma de viver. Uma existência que marca uma diferença, deslocando a deficiência do lugar da falta, colocando-a no campo da autonomia, da sensibilidade e da invenção. E com isso, provoca mudanças institucionais e na compreensão de inclusão de pessoas com deficiência na sociedade.
João Tomé participou de um período decisivo da formação de Brasília. Sua vida se entrelaça à história dos candangos, à construção da nova capital, ao desenvolvimento da música e dos meios de comunicação. Nesse cenário sua trajetória ganha uma dimensão particularmente significativa, pois não cabe facilmente na narrativa da deficiência como tragédia individual. Ao contrário, ela revela a potência de uma pessoa que construiu estratégias próprias para habitar o mundo. Sua percepção espacial é um exemplo extraordinário. Em uma Brasília ainda em construção, onde ruas, edifícios e referências urbanas se modificavam constantemente, deslocar-se pela cidade era um desafio para qualquer pessoa. Para um homem cego, as dificuldades poderiam parecer ainda maiores. Mas, ele desenvolveu formas próprias de orientação e reconhecimento dos lugares. A memória auditiva, a percepção corporal, a escuta dos ambientes. Ele reconhecia a presença e a distância de obstáculos num estalar de dedos, e assim percebia as ondas sonoras e como ressoavam. Mais do que tomar essa experiência como algo extraordinário ou quase sobrenatural, ela permite pensar em outra questão: sem a primazia da visão, o que somos capazes de fazer? o que acontece com nossa percepção?
A história de João Tomé nos força a deslocar a ideia de que conhecer é necessariamente ver. Seu corpo produzia outras formas de orientação. O espaço era construído pela escuta, pelo tato, pela memória, pela vibração, pelo ritmo, pela presença dos corpos e pelos sons da cidade, enquanto ela era erguida no meio do cerrado, por milhares de trabalhadores vindos de diferentes regiões do país. Os candangos não foram apenas mão de obra de uma obra monumental: foram sujeitos que produziram modos de vida, redes de solidariedade, culturas, festas, músicas, linguagens e formas de ocupação do território. A cidade planejada no papel precisava ser continuamente reinventada por aqueles que a habitavam. O rádio tevepapel fundamental nesse processo, por ter sido um dos principais meios de ligação entre as pessoas. Para os trabalhadores que haviam deixado suas cidades e famílias em diferentes partes do Brasil, a comunicação radiofônica ajudava a diminuir distâncias. Notícias, músicas, recados e vozes atravessavam o território. O rádio podia funcionar como elo entre Brasília e os lugares de origem dos candangos, criando uma espécie de ponte afetiva entre a cidade que estava nascendo e aqueles que haviam ficado longe.
É nesse universo que João Tomé também se insere. Sua passagem pelo rádio o coloca dentro de uma história maior, qual seja, a história da profissionalização de músicos, da formação do público, da circulação da música popular brasileira e da própria consolidação dos meios de comunicação na nova capital. Ao lado de artistas que marcaram a música e o rádio brasileiro, como Dalva de Oliveira, Grande Otelo, Nelson Gonçalves, Ângela Maria e Moacyr Franco, sua trajetória ajuda a revelar uma dimensão ainda pouco contada: a presença de pessoas cegas e de outras pessoas com deficiência nos espaços profissionais da cultura e da comunicação. Ele esteve entre os pioneiros desse processo de formação musical na cidade. Sua trajetória permite, pensar a educação musical não apenas como uma instituição formal, mas como algo que nasce das experiências, dos encontros, das rodas, dos músicos e dos espaços improvisados de uma cidade que ainda estava aprendendo a existir. Assim a Escola de Música de Brasília aconteceu, tendo João Tomé como um dos professores, quando ainda não tinha a estrutura que tem hoje e que as atividades aconteciam em diferentes espaços.
João Tomé não deve ser lembrado apenas como “o cego que tocava muito bem”. Reduzi-lo a essa condição seria repetir o mesmo mecanismo que sua vida parece ter desafiado. Sua história nos faz perguntar sobre o capacitismo que atravessa nossa formação social. Quantas pessoas extraordinárias como João Tomé foram historicamente invisibilizadas porque aprendemos a enxergar primeiro a deficiência e só depois a pessoa? A trajetória dele sugere outra possibilidade. Em vez de perguntar o que uma pessoa cega não pode fazer, podemos perguntar quais conhecimentos, tecnologias corporais, sensibilidades e formas de percepção foram desenvolvidos justamente porque ela não acessa o mundo prioritariamente pela visão. A questão deixa de ser “o que falta?” e passa a ser “o que foi criado?”. Reconhecemos então não a falta da visão, mas o que se criou apesar dela. Talvez seja essa a maior força de sua memória. Nem todos sabem que a história da deficiência no Brasil não é apenas uma história de instituições, exclusão e tutela, mas também de resistência, invenção, trabalho, arte, autonomia e produção de conhecimento. E talvez nem todos saibam que, para compreender plenamente a história de uma cidade, é preciso escutar aqueles que a
história oficial nem sempre enxergou.

*Edlamar França – psicóloga, psicanalista, colunista do Brasil de Fato, e crítica de cinema na
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