Um é pouco, Dois é bom: entre o sonho da liberdade e o aprisionamento estrutural

O longa-metragem “Um é Pouco, Dois é Bom” (1970), dirigido por Odilon Lopez e distribuído pela Borboletas Filmes, pode ser lido como uma obra que problematiza as promessas de mobilidade social, liberdade e constituição de uma vida autônoma numa sociedade atravessada por desigualdades de classe, gênero e raça. Dividido em duas histórias, o filme constrói trajetórias aparentemente distintas, mas que pouco a pouco, revelam uma mesma estrutura: sujeitos que desejam começar uma nova vida, mas encontram, em seu caminho, mecanismos sociais que os reconduzem continuamente às posições das quais tentavam escapar. Como povo forjado em travessias e diásporas, mesmo que essa história nos pareça longínqua e absurda, as memórias da escravidão são recontadas pela reprodução da barbárie e suas sutilezas. Corpo, fuga, perseguição, captura e repetição da violência são transpostos pelo roteiro cujos significantes prisão, rua, trabalho, casa e amor aparecem como figuras de uma experiência histórica em que a promessa de liberdade é solapada pela captura de uma maquinaria aprisionante. Na primeira história, Jorge e Maria recém-casados compartilham o sonho de sair da vila e conquistar uma casa própria. O projeto parece representar uma experiência clássica de ascensão social: trabalhar, economizar, adquirir um imóvel e constituir uma família. Jorge é motorista de ônibus e Maria trabalha como vendedora em uma loja de tecidos. A casa própria não é apenas um bem material significa, para o casal, conquistar um lugar no mundo. É precisamente essa promessa que o filme começa a desmontar. 

 

A relação entre Jorge e Maria apresenta, em sua intimidade, uma possibilidade de transformação dos papéis de gênero. A cena doméstica em que Maria prepara a comida enquanto Jorge lava a louça sugere uma relação de cuidado e reciprocidade, deslocando, ainda que de maneira limitada, a divisão tradicional do trabalho doméstico. Para a época, podemos considerar que o diretor, pela magia do cinema, prospecta uma realidade desejada em que a igualdade entre homens e mulheres seja algo possível de ser vivido na intimidade, mas também fora dela. Mas essa possibilidade encontra os limites impostos pelo mundo do trabalho. Maria é demitida por engravidar. O filme evidencia a hostilidade de um mercado de trabalho organizado a partir de uma lógica masculina. A maternidade, que deveria ser reconhecida como dimensão da reprodução da própria vida social, transforma-se em motivo para a exclusão econômica da mulher. A dificuldade enfrentada por Maria mostra que a igualdade construída na intimidade não encontra correspondência nas estruturas sociais.

 

Para conseguir pagar o financiamento da casa e dar uma boa condição de vida para sua família, Jorge decide trabalhar mais. A necessidade de realizar mais jornadas e obter mais comissões para aumentar uma remuneração insuficiente e a fadiga, resultam em acidente de trabalho. Provocando a morte de uma pessoa e ferindo outras. Aqui o diretor faz uma denúncia, o acidente não aparece simplesmente como resultado de uma falha individual. Ele mostra como o trabalhador é responsabilizado por uma tragédia cuja origem está, em grande medida, na própria organização do trabalho. Trabalhar para escapar da precariedade, acabou por produzir uma precariedade ainda maior. Essa realidade se instituiu, atravessou os tempos e se atualiza em jornadas de trabalho desumanizantes como a escala 6×1 nos tempos de agora. Jorge é preso depois do acidente, mas sua saída da prisão não significou a sua libertação. Sem conseguir retornar ao mercado formal de trabalho, ele recorre à informalidade, contrai dívida, é ameaçado por ordem de despejo e volta a enfrentar a hostilidade do aparelho estatal. 

 

As imagens finais dessa história são literalmente sufocantes. Enquanto Maria precisa de oxigenação durante o parto, Jorge se tranca dentro de casa para impedir a execução da ordem de despejo. A casa, que havia sido imaginada como símbolo de liberdade e nova vida, transforma-se em espaço de confinamento e retorno à precariedade de antes. Os agentes do despejo lançam gás dentro do apartamento e Jorge acaba asfixiado. O excesso de trabalho destrói Jorge; a gravidez exclui Maria; a dívida ameaça a casa; a ação do Estado expulsa a família; e a precariedade invade até o nascimento do filho. A criança nasce não como símbolo de renovação, mas como herdeira de uma precariedade que não produziu. Ela não herda a casa; herda as condições sociais que tornaram impossível mantê-la, uma vida que nasce já sufocada pelas estruturas segregantes. Essa dimensão da herança conversa com o conceito de “Devir Negro do Mundo” de Achille Mbembe, cuja expansão de uma condição historicamente associada à experiência negra (exploração, espoliação, precarização e exposição à morte) se estende a parcelas cada vez maiores da população mundial. Ou seja, formas de existência antes reservadas a populações racializadas passam a funcionar como modelo geral de exploração.

 

A segunda história traz à tona a dimensão racial que estava oculta na primeira. Dois homens, um negro e um branco, saem da prisão e não carregam nada além de poucos objetos pessoais. Sem recursos mas com desejo de uma “nova vida”, a saída deles é marcada pela espoliação: o agente policial tenta extorquir de um deles, um relógio sem ponteiros e parado. O objeto aparentemente inútil ganha uma dimensão simbólica nessa história, pois trata-se de um relógio cujo tempo não passa para sujeitos que saem da prisão, que não conseguem usufruir um futuro diferente. O relógio parado representa uma vida estagnada, um tempo sem direção nem movimento. Porque se deparam com as mesmas condições que os colocaram na prisão, repetindo um ciclo em que a própria estrutura dificulta que saiam dos lugares determinados socialmente para eles. A diferença entre os dois parceiros e seus lugares racializados fica evidente na cena que marca o acesso desigual à escrita. O homem branco sabe ler e escrever e assina sua ficha de liberação; o homem negro, analfabeto, registra sua presença por meio das impressões digitais. A assinatura, que representa cidadania e reconhecimento jurídico, está disponível a um, ao outro resta a marca do próprio corpo. Logo após deixarem a prisão, encontram dois homens fisicamente semelhantes a eles reforçando a ideia de repetição. É como se o sistema produzisse continuamente os mesmos sujeitos, as mesmas trajetórias e os mesmos destinos. 

 

Em um momento de necessidade alimentar, o homem branco utiliza o parceiro negro como instrumento de distração, deixa que a vigilância recaia sobre o negro enquanto ele subtrai as mercadorias. Esta cena nos remete às análises de Fanon sobre o corpo negro que é transformado em signo antes mesmo que o indivíduo possa falar por si. Ele é visto, classificado e interpretado a partir da racialização. E a relação com a mulher branca radicaliza ainda mais essa questão. O encontro do homem negro com aquela que ele chama de “fadinha” parece inicialmente oferecer a possibilidade de uma ruptura. Através dela, ele experimenta o desejo de pertencer. A mulher lhe oferece acesso a uma casa, passeios, roupas novas, comida, festas e a um universo social e cultural distante daquele marcado pela  sobrevivência cotidiana. Para ele, a relação amorosa deu-lhe o que a sociedade havia negado: um lugar no mundo. Mas o conto de fadas revela-se rapidamente uma relação de poder. O personagem negro descobre que não é amado como sujeito, mas desejado como objeto. Ele ocupa temporariamente um lugar na fantasia da mulher branca, que parece repetir a performance com outros homens negros, os quais nem lembra de seus nomes. O problema da mulher branca não é desejar um homem negro, mas reduzir sua alteridade a uma imagem previamente construída. Ela não encontra um indivíduo em sua opacidade e singularidade, encontra uma fantasia racial.

 

A sequência final da história leva essa lógica ao limite do delírio. O que parecia um momento festivo de um grupo reunido em uma casa de praia, vai se tornando gradualmente em um palco de hostilidades. Uma espécie de ser mágico entorpece as pessoas e produz uma atmosfera na qual fantasia e realidade se confundem. O negro, de olhos vendados (ou cego de paixão), procura sua “fada branca”, enquanto o espaço ao redor se converte em cenário de desejo, erotismo e inscrições contraditórias nos muros. O ambiente parece materializar as fantasias e os preconceitos que organizam as relações sociais. O homem negro é colocado no centro de uma roda e aquilo que parecia celebração converte-se em violência. A mulher branca despe-o violentamente, ataca-o e morde.

 

Em seguida, uma mulher branca mais velha aparece e, por um instante, parece representar a possibilidade de salvação. Mas ela o chama de ladrão e participa do linchamento. A cena expõe uma dimensão ambígua do racismo: o sujeito negro pode ser desejado e, no instante seguinte, ser criminalizado; ter ser corpo fetichizado e depois violentado. O mesmo corpo que é objeto de desejo pode ser convertido em objeto de punição. Desejo e violência aparecem como dimensões que podem coexistir dentro da mesma ordem racial. O parceiro branco tenta intervir, apresentando-se como segurança, mas também é acusado de ladrão. Os dois conseguem fugir da tentativa de linchamento mas retornam à prisão que não é apenas o lugar para onde os personagens retornam; é a própria estrutura social da qual eles nunca conseguiram sair. Quando os dois concluem que talvez seja melhor permanecer presos, pois ali ao menos tem comida e um lugar para dormir, a prisão passa a oferecer uma segurança mínima que o mundo exterior não oferece. 

 

A casa de Jorge e Maria e a prisão dos dois amigos podem, finalmente, ser compreendidas como espaços e experiências espelhados. A primeira é desejada como liberdade e termina como cárcere; a segunda é imposta como punição e termina sendo desejada como abrigo. Jorge trabalha até o esgotamento e perde tudo. Maria tenta trabalhar e é excluída pela maternidade. Os dois homens tentam recomeçar e retornam à criminalidade. O homem negro encontra o amor e descobre que seu corpo era desejado como fetiche. Todos eles desejam uma vida diferente, mas encontram uma sociedade que parece já ter definido os limites dessa diferença. A crítica social que o filme faz está justamente em mostrar que a precariedade aprisionante não é um acidente individual. Ela é produzida, distribuída e administrada.

 

*Edlamar França – psicóloga, psicanalista, colunista do Brasil de Fato, e crítica de cinema na

Borboletas Filmes